21ª semana CCM 2026. Semana intensa; World Bank, mercados, preço do carbono; ONU metodologia N₂O; SBCE setores; ICJ & Justiça climática; Europa aquece; Emissões Vale; Passivo climático; Harrison Ford
- Art Dam
- há 5 horas
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Segunda-feira, 25 de maio de 2026.
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21ª semana de Carbon Credit Markets em 2026
Se quiser, ao som de “Carbono, Petróleo e Água” ou outras músicas de sua escolha.
Mercados de carbono em uma semana marcada por três movimentos centrais: o Banco Mundial aponta que o setor entrou numa fase de maturidade, com quase um terço das emissões globais já precificadas e sistemas avançando para uma lógica de precificação estrutural; a ONU aprovou sua segunda metodologia para mercados de carbono — depois da de metano em aterros — agora mirando o potente gás industrial N₂O, cujo potencial de aquecimento é cerca de 273 vezes maior que o do CO₂; e o Brasil definiu os 17 setores que integrarão o futuro mercado nacional de emissões.
Outros Destaques: a Assembleia Geral da ONU endossou, com apoio de 141 países, o parecer da Corte Internacional de Justiça que afirma que a crise climática gera obrigações legais aos países — um marco na justiça climática que já vinha sendo reportado por nós; e um novo relatório da WMO e do Copernicus confirma que a Europa vive seu período mais quente já registrado, apesar do avanço das renováveis.
E concluindo com as Curtas: a Vale publicou seu novo inventário de emissões de GEE, auditado e alinhado a padrões internacionais, destacando que 98% de suas emissões estão no Escopo 3 — um nível de transparência ainda raro no setor; um estudo da RAC indica que o mercado já trata emissões corporativas como passivo financeiro, penalizando empresas com maior risco climático; e Harrison Ford ganhou atenção ao fazer um discurso de tom urgente e de responsabilidade climática para formandos da ASU.
Além de uma lista com eventos relevantes.
Créditos de Carbono
Banco Mundial: A Maturidade dos Mercados de Carbono e a Chegada da Era da Precificação Estrutural
Conforme antecipamos há alguns dias, o World Bank Group publicou seu mais recente State and Trends of Carbon Pricing 2026, com dados impressionantes — e aqui aprofundamos a análise em relação ao artigo anterior.
O relatório mostra que estamos entrando numa fase de maturidade estrutural dos mercados de carbono — tanto regulados quanto voluntários.
Nos mercados regulados, a combinação de expansão de cobertura (29% das emissões globais já precificadas), elevação consistente de preços (média global de US$ 21/tCO₂e) e crescimento das receitas(US$ 107 bilhões em 2025) revela um movimento claro: o carbono deixou de ser um instrumento periférico e tornou‑se infraestrutura econômica. A entrada de grandes emergentes — Índia, Japão, Vietnã — e a pressão indireta do CBAM europeu aceleram a convergência regulatória, enquanto a tendência de interoperabilidade (Open Coalition, IFCMA, padrões de MRV) indica que o futuro será de sistemas conectados, com liquidez trans-fronteiriça e menor assimetria regulatória. Em paralelo, a migração de setores intensivos (indústria, resíduos, mineração) para dentro dos ETSs reforça a tese de que o carbono está se tornando um custo operacional inevitável.
Nos mercados voluntários, o relatório confirma uma reconfiguração profunda: emissões de créditos cresceram 8%, mas a demanda se desloca para projetos de alta integridade, ratings elevados e elegibilidade internacional (como CORSIA). A precificação reflete isso: créditos CORSIA‑eligible mantêm prêmio de US$ 1,50–6/tCO₂e, enquanto projetos de remoção — especialmente engenharia e biochar — já operam em patamares de US$ 100–600/tCO₂e, impulsionados por offtakes corporativos que triplicaram para US$ 12 bilhões. A queda nas aposentadorias em 2025 não indica retração, mas sim ciclos de conformidade (como o caso da Califórnia) e uma transição para compras antecipadas via contratos de longo prazo. O surgimento do PACM como mecanismo operacional adiciona um novo vetor de oferta soberana, com potencial de alterar preços, liquidez e padrões de qualidade nos próximos anos.
ONU aprova 2.ª metodologia que habilita créditos de carbono, agora para redução industrial de N₂O
O órgão da ONU responsável pelo Artigo 6.4 do Acordo de Paris adotou em 21 de maio de 2026 uma nova metodologia - a segunda da lista, após projetos que reduzem emissões de metano em aterros sanitários - que permite que projetos de redução de óxido nitroso (N₂O) em plantas de ácido nítrico gerem créditos de carbono no âmbito do Paris Agreement Crediting Mechanism. A decisão, tomada em Bonn, amplia o escopo do mercado global de carbono ao incorporar um dos gases de efeito estufa mais potentes e cria regras padronizadas de monitoramento, reforçando a descarbonização industrial como parte das metas climáticas.
Segundo a NOAA, as concentrações atmosféricas de N₂O seguem em alta histórica, crescendo cerca de 1,3 ppb/ano e atingindo em 2023 o maior nível já registrado. O gás é o terceiro mais relevante para o aquecimento global, possui 273 vezes o potencial de aquecimento do CO₂, permanece mais de 100 anos na atmosfera e é hoje o principal responsável pela destruição da camada de ozônio, o que o torna crítico no contexto das mudanças climáticas.
A nova metodologia deve beneficiar principalmente a indústria de fertilizantes e o setor químico pesado, que operam entre 400 e 600 plantas de ácido nítrico no mundo, responsáveis por cerca de 70 milhões de toneladas/ano de produção e por grande parte das emissões industriais de N₂O, segundo a IEA. Países com grande parque químico e menor adoção de tecnologias de abatimento — como China, Índia, Brasil, Indonésia, Rússia e África do Sul — tendem a ter maior potencial de geração de créditos, enquanto economias já mais controladas, como EUA, Alemanha e Polônia, podem reduzir menos por já terem catalisadores amplamente instalados.
Brasil define 17 setores que farão parte do futuro sistema nacional de comércio de emissões
No dia 19 de maio de 2026, o governo brasileiro apresentou a proposta do Mercado Regulado de Carbono (SBCE), definindo uma cobertura preliminar de 17 setores da economia, a serem incorporados de forma gradual até 2031. A proposta estabelece que as obrigações de Mensuração, Relato e Verificação (MRV) serão introduzidas em três etapas:
2027, com papel e celulose, ferro e aço, cimento, alumínio primário, exploração e produção de petróleo e gás, refino e transporte aéreo;
2029, com mineração, alumínio reciclado, setor elétrico, vidro, alimentos e bebidas, química, cerâmica e resíduos; e
2031, com transportes rodoviário, aquaviário e ferroviário.
Considerando a entrada progressiva desses 17 setores, estimamos que o Brasil deve cobrir, de forma cumulativa, cerca de 55–60% das emissões fósseis e industriais em 2027, 75–85% em 2029 e aproximadamente 90–95% a partir de 2031.
Além das regras de MRV, o sistema prevê limites obrigatórios de emissões, alocação de cotas, mecanismos de compensação e uma transição regulatória para atividades de maior intensidade de carbono.
Paralelamente, em 13 de maio, a Portaria Interministerial nº 69/2026 estabeleceu diretrizes administrativas e de governança relacionadas ao processo regulatório, reforçando o movimento institucional de harmonização internacional, competitividade e previsibilidade regulatória. A imagem abaixo apresenta o cronograma de implementação dessas etapas.
Outros Destaques
Mais de 140 países endossam decisão da Corte Internacional de Justiça sobre dever climático — conforme já antecipávamos
A AG da ONU aprovou em 20 de maio de 2026 uma resolução histórica que endossa o parecer da Corte Internacional de Justiça (ICJ), afirmando que a crise climática constitui uma obrigação legal dos países — não apenas uma escolha política. Com o apoio de 141 países - e apenas 28 abstenções - o movimento foi descrito por António Guterres como uma “poderosa afirmação do direito internacional, da justiça climática e da ciência”. A resolução reforça que falhar em proteger o sistema climático pode violar o direito internacional, abrindo espaço para responsabilização e reparações por parte dos países mais afetados, e exige que os governos adotem todas as medidas possíveis para evitar danos significativos ao clima, cooperem de boa‑fé e cumpram plenamente o Acordo de Paris.
Em julho de 2025 os leitores de CarbonCreditMarkets.com já haviam tido acesso ao parecer histórico da ICJ, que declarou a crise climática uma “ameaça urgente e existencial” e citou explicitamente o CORSIA, reforçando que os Estados têm obrigação legal de considerar esses compromissos.
Durante a COP30 em Belém, também destacamos — diante da forte presença internacional — o painel “Ilhas Fiji: Dos Tribunais à COP — Como a decisão da Corte Internacional de Justiça influencia as negociações climáticas”, coberto em nossa publicação Panorama Integrado da COP30, parte da expedição COP Experience.
Europa registra aquecimento recorde e impactos climáticos extremos, novo relatório
O relatório European State of the Climate 2025, publicado em 29 de abril de 2026 por Copernicus ECMWF e pela Organização Meteorológica Mundial (WMO), mostra que a Europa é o continente que mais aquece, com temperaturas acima da média, recorde histórico de temperatura do mar, mais de 1 milhão de hectares queimados por incêndios florestais, além de tempestades e inundações que afetaram milhares. Ao mesmo tempo, as energias renováveis alcançaram 46,4% da eletricidade europeia - com recorde de 12,5% de solar - reforçando a urgência da transição energética diante dos impactos crescentes das mudanças climáticas. Para comparação, o Brasil já supera 80% de eletricidade renovável, mantendo uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, principalmente com hidrelétrica, eólica, solar e biomassa.
Curtas & Oportunidades
Relatório de Emissões de GEE – Escopos 1, 2 e 3 – 2025. No último dia 19 de maio, a Vale deu mais um passo importante na consolidação da sua gestão climática ao publicar um inventário alinhado a referências internacionais e submetido a auditoria independente. Em um setor onde poucas gigantes globais adotam esse nível de rigor, a empresa se destaca ao reconhecer que “mais de 98% de suas emissões totais estão fora de seu controle direto” e, ainda assim, apresentar uma mensuração robusta, transparente e tecnicamente consistente. Esse grau de detalhamento é crucial para orientar a descarbonização e fortalecer a confiança dos stakeholders. Para quem acompanha clima, mineração e transição energética, vale explorar as 39 páginas do relatório — um dos materiais mais avançados do setor.
“Carbon Liabilities Are Priced: Carbon‑Adjusted Debt Predicts Underperformance”, artigo publicado em 19 de maio de 2026 na RAC – Revista de Administração Contemporânea por Thiago Gil e Wesley Mendes‑da‑Silva, mostra que as emissões corporativas de carbono já são tratadas pelo mercado como um passivo financeiro: ao transformar emissões em um carbon‑adjusted cost of debt, os autores demonstram que empresas brasileiras com maior “passivo de carbono” enfrentam custos de dívida mais altos e retornos acionários mais baixos, especialmente quando preços globais de carbono sobem em reais — evidência de que investidores já internalizam risco climático em crédito, valuation e desempenho de mercado. Agradecemos ao professor Oscar Malvessi por compartilhar o trabalho conosco.
“The world my generation left you, is a real mess”. Harrison Ford ganhou destaque recente na imprensa norte-americana por seu tom urgente, ambientalista e socialmente engajado, ao discursar em 11 de maio de 2026 para formandos da Arizona State University. Vale assistir e escutar.
Eventos
Maio
🇵🇪 27 e 28, Peru Carbon Forum 2026, 3ra edición, ESAN, Lima, Perú.
Julho
🇫🇷 1 e 2, Green Growth and Sustainable Development (GGSD) Forum 2026. Em Paris e online.
🇯🇵 22, Strengthening Local Resilience to Planetary Crises: Scaling up Synergistic Solutions. Kobe, Japão, presencial e online.
🇧🇷 24, 2ª Conferência Brasileira de Inventariação de Gases de Efeito Estufa. Curitiba, Brasil.
Agosto
🇧🇷 27 e 28, Conferência Brasileira Clima e Carbono, Aliança Brasil NBS.
Setembro
🇨🇳15, Carbon Market Conference. Open Coalition on Compliance Carbon Market, em Wuhan, China.
Outubro
🇦🇿🇺🇳 5 a 9, UNFCCC Climate Week 2, Baku, Azerbaijão.
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